domingo, 3 de maio de 2015

Capítulo 20

Etiénne nem dá atenção para o que a mãe fala. Já se acostumou com as bobagens de Dora. Mas essa estória de herança, de barão, é demais prá sua cabeça! De todos os trambiques que sua louca família aplicou ( e que deram errado, claro!), esse foi o mais bizarro! Não dá mesmo para confiar no Antonio…! Com certeza a ideia foi dele. Ele é expert em golpes mirabolantes!
Agora, aquela garota não bate bem da cabeça não. Criatura esquisitinha! Gesticulando horrores, não falava coisa com coisa… Etiénne não entendeu nada, mas agora já sabe que tem o dedo do seu irmão nessa maluquice toda. De onde será que ele tirou isso, gente?!
De qualquer maneira, uma coisa é certa: Etiénne não quer fazer parte disso. como nunca fez das outras vezes. E foram muitas, muitas vezes! Desde criança, ele vê os pais nessa loucura, aplicando um golpe aqui, fazendo um trambique ali… Sempre se deram mal! Tudo pra ter uma grana fácil, sem fazer força. Pois é, enquanto houver otário no mundo, esperto se dá bem! Claro que não é o caso da família Bomfim…
Dora Bomfim é sua mãe. Uma mãe que foge dos padrões das mães. Ela nunca fez o tipo cuidadosa, que levava prá escola, que dava comidinha, banho, essas coisas que todas as mães fazem. Ela sempre foi “cuca fresca” em relação à criação dos filhos. Nunca foi de cobrar, exigir nada. Mas ao mesmo tempo, sempre conseguiu manipular a família para que fizessem o que queria…  O marido, a mãe e o filho.
Todos, apesar da “liberdade” que Dora sempre lhes deu, acabam fazendo o que ela quer. Menos Etiénne, claro. Antonio parece muito com ela , na personalidade e no caráter. Seu pai Antenor, com certeza é o mais manipulável. Ele é completamente apaixonado por Dora e faz tudo (mesmo que reclamando) o que ela quer. A única cabeça boa da família é Etiénne! Caramba, precisa ter alguém lúcido nessa estória…!
Cansou de ver seus pais fugindo da polícia por conta dos trambique e falcatruas que armaram…! Um golpe aqui, não deu certo, pintou a polícia, hora de meter o pé e sair de cena! Outra cidade, outro golpe, mais uma fuga… E por aí vai. Uma roda viva constante, desde que ele se entende por gente!… Quando sua avó era viva, também participava dessa maluquice. E a velhinha gostava, hein! Tudo bem que ela quando jovem aprontou bastante, mas depois de uma certa idade, dar apoio pros desvairios da filha, é um pouco demais!…
E ainda tem mais: ela nunca disse quem era seu avô. Um mistério misteriosíssimo, um segredo de família guardado à sete chaves… E que Otília Guimarães levou pro túmulo. Quer dizer, aparentemente foi assim. Mas agora,do nada, Dora vem com essa estória de que seu pai é um duque, conde, príncipe, sei lá o quê mais…! Se for só estorinha, tudo bem. Vai acabar logo, eles vão fugir para outro estado, para não irem pro xilindró… Mas se for verdade, aí a coisa muda de figura.
__Isso vai dar merda! _ ele pensa enquanto arruma a mochila_ Eu quero tá bem longe quando isso acontecer!
Etiénne abre o armário e enfia a mão lá no fundo, tateando até encontrar uma caixinha.
__Ah, vou cair fora dessa! Vou meter o pé antes que essa merda se espalhe e sobre prá mim também!_ ele tira uma chavinha do bolso da calça e abre a caixinha_ Mas que porra é essa?!?! Cadê a minha grana que tava aqui?!_ está furioso, joga a caixinha loge, fala um palavrão_ Só pode ser coisa do Antonio! Aquele ladrãozinho de merda! Eu vou te matar, Antonio!_ grita e sai do quarto como um animal enlouquecido…
Quase arrebenta a porta do quarto do irmão, voando prá cima dele e apertando seu pescoço… Antonio dá um grito e tenta se desvencilhar, mas Etiénne aperta com mais força e imprensa contra a parede…
__O que deu em você, Etiénne? Está me machucando!
__Vou te quebrar todo, seu verme! Cadê o meu dinheiro, Antoninho?
__Que dinheiro? Você tem dinheiro?_ ele engasga com as palavras, a voz quase não sai…
__Você pegou meu dinheiro, seu merda! Cadê meu dinheiro?
__Que dinheiro? Eu nem sabia que você tinha dinheiro guardado!

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