Capítulo 6
O homem que parece ter um sorriso colado nos lábios se aproxima do barão.
__Isso mesmo, sobrinho-neto! Meu avô era Ludovico. Eu queria muito conhecê-los!
__Prá quê? E porquê? Nunca soubemos de nenhuma filha, de nenhum neto do Ludovico! O que sabemos é que ele foi enganado por uma vagabunda! _ o barão está possesso!
__Minha avó não era vagabunda. Ela se apaixonou. _ diz o sujeito num tom sério que não combina em nada com a expressão sorridente do rosto dele...
Vivian só observa... Que estória de maluco essa! De repente o falecido tem amante, filha, neto! Ela não está entendendo nadica de nada! Mas está gostando...
--Deixa o rapaz falar, meu irmão. Vamos ouvir a estória dele._ diz Epitacio, na maior tranquilidade.
__Obrigado, tio. Minha mãe ligou dia desses, mas os senhores não entenderam do que se tratava.
Os barões se entreolham, surpresos, meio que desconfiados.
__Ah,sei. Sua mãe é quem? -perguntou Porfírio.
__Dora Bomfim.
__Ahhh!... Não sei quem é. Ela ligou, é? Não lembro não.- Epitácio olha para Vívian- Alguma Dora ligou prá cá?
__Sei lá! Ninguém liga prá, os barões não têm amizade nenhuma! Só cobrador telefona!-ela dá um sorrisinho sem graça.
__Ela ligou e infelizmente não foi bem tratada pelos senhores.- diz o homem, ao mesmo tempo em que senta na poltrona do barão- Aliás, eu sinto muitíssimo por isso. Minha mãe sempre fala dos senhores, das coisas que minha avó contava sobre os barões… Eu fiquei muito curioso e também encantado com as estórias!… Estamos tentando nos aproximar, mesmo sabendo que não somos bem quistos, que não temos esse direito… Mas era um desejo da minha avó. Um dos últimos desejos dela antes de morrer.
Caramba! Vívian não está entendendo patavina do que ele está dizendo! Mas está gostando, do jeito todo empertigado, do palavreado difícil e, claro, da beleza dele…! O homem é estranho, mas todo bom!
__Que conversa de cerca-lourenço é essa, rapaz?!- Porfírio se empertiga e vai empurrando Antonio para fora da poltrona- Essa poltrona é minha, sem educação! Que conversa é essa, hein? Tá querendo dizer o quê com isso? Que temos de aceitá-lo e à sua corja na nossa família?
Antonio abre mais uma vez um sorriso. Segura a mão enrugada do tio e diz:
__Seria uma honra se nos aceitassem… Eu sei que a relação da minha avó com meu avô foi difícil para os barões aceitarem e que isso prejudicou as nossas famílias. Mas nunca é tarde para mudar, não é?
Porfírio puxa a mão, indignado.
__Ora, ponha-se daqui para fora, seu cafajeste! Não conhecemos sua mãe e muito menos sua avó! Eu conheci sim, uma safada golpista, uma vagabunda, piranha profissional que seduziu o meu irmão! Saia desta casa imediatamente!
__Calma, meu irmão!- intervém Epitácio- Vamos agir com calma! E se for verdade? Se ele for mesmo neto do Ludovico? Olha, rapaz, você volte prá sua casa e diga à sua mãe que podemos conversar outro dia. Está bem assim?- o barão fala manso conduzindo Antonio até a porta- Agora vai com Deus!
__Obrigado pela consideração, tio. Eu vou falar com mamãe. Ela vai ficar radiante! Mas como assim conversar?… Vão recebê-la aqui?
__Sim, pode ser. Adeus, rapaz!- o barão abre a porta- Vai em paz!
E bate a porta dando um suspiro de alívio.
__Porque você disse aquilo, Epitácio?!- grita Porfírio.
__E se ele for um assaltante, um psicopata, um maníaco desses que estão por aí fazendo maldades? E se ele for um golpista, querendo aprontar prá cima de dois velhinhos indefesos? Com essa gente não se pode brincar, meu irmão! Melhor fingir que aceita e tal, prá depois pensar com calma em tomar uma providência!
__Gente, vocês são pirados mesmo!- Vívian começa a rir- O cara parecia legal, não tinha nada de louco ou assassino! Vocês são muito figuras! E que assaltante entra assim, todo trabalhado na educação, na finura, falando difícil e tals? Os pirados aqui são vocês, meus patrões!
Porfírio e Epitácio se olham e depois encaram Vívian.
__Tá fazendo o quê aqui, criatura?!? Vai tomar conta do fogão, da roupa suja, da louça na pia! Isso aqui é assunto de família, empregada não se mete não!- esbraveja Porfírio.
__Eu sou empregada não escrava! Aliás, faz tempo que não vejo a cor do meu salário, hein!
__Vai cuidar do seu serviço, senhorita! Deixe que cuidamos da nossa vida!- diz Epitácio- Vai prá cozinha, Vívian! E nada de ficar escutando atrás da porta!
Vívian faz uma reverência exagerada diante dos velhinhos.
__Ouço e obedeço, meus senhores!
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