sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Capítulo 1

Segunda-feira,Botafogo, zona sul.
Ih,deu zebra! O arroz queimou, a carne está dura e o feijão sem sal…! Só para variar, o jantar babou! Aliás, a cozinha está um horror… Quer saber? Melhor é deixar tudo prá lá, e arrumar amanhã. Prá quê esquentar a cabeça agora, já de noite, gente?! Deixa prá lá, pronto.
Só que não. Os patrões estão de olho lá na sala, prontinhos para lhe tirar o couro! Então, ela precisa arrumar essa bagunça logo, antes que o velho babão, quer dizer, barão, comece a reclamar…
Trabalho duro esse de empregada, viu! Lava daqui, passa dali, cozinha, arruma, faz feira, supermercado… Uau, demais prá sua cabeça! Mas mesmo sendo um tantinho só atrapalhada nos afazeres domésticos, Vívian gosta do seu trabalho. É o que sabe fazer, né? Não gostava de estudar, então teve que trabalhar muito cedo.
A cozinha está “uma graça” mesmo, vai ter que limpar. Enquanto os barões descansam na sala, ela dá um jeitinho básico na cozinha ao mesmo tempo em que assiste à novela das oito. Vívian até que não tem muito o que reclamar dos barões. Eles pagam direitinho, a tratam mais ou menos… É como ela mesmo diz: tá ruim, mas tá bom.
Claro que gostaria de ter um emprego “de verdade”, com um salário de verdade, patrões amáveis e coisa e tal… Mas com pouco estudo e uma cabecinha meio atrapalhada, difícil ter coisa melhor. Difícil ser coisa melhor. Ela não é ambiciosa não. Está numa boa com a vida que leva. Mas que poderia ser melhor, lá isso poderia.
Lava a louça, limpa o chão, guarda as panelas, desliga a televisão. Agora chega de trabalho! Vívian sobe as escadinhas que dá na área de serviço. Lá no fundo, o quarto dela. Um quarto minúsculo, porém bem ajeitado. Depois de tomar um banho, deita na cama e fecha os olhos, buscando o sono. A cabeça, como sempre, começa a pensar e aí, nada de sono…! Aquelas bobagens, coisas do passado, coisas do presente, coisas do futuro. E pensa nos pais, que ficaram lá no interior, e pensa nos irmãos, que estão por aí (sabe Deus onde e fazendo o quê!), e pensa nos tios que a acolheram tão bem, e pensa no seu “rolo” com  André… Por aí vai, dando voltas e mais voltas.
Sono que é bom, nada! Quase todo dia é isso: trabalha feito burro de carga e quando chega a noite, não consegue relaxar! Seus pensamentos fervilham, seus problemas fervilham…! Os pais, os irmãos, o namorado… E ainda tem os patrões. Pacote completo! Ela se remexe na cama, cobre a cabeça, descobre a cabeça… Ah, não dá não! Levanta e vai para a cozinha, tomar um leite, um café, uma cachaça, o que tiver prá chamar o sono. Esse mausoléu dos barões até que não é de todo mal. Quando veio do interior,Vívian não conhecia nada no Rio, não fosse pela ajuda dos tios, nem teria onde morar.
Na verdade, ela é carioca, nascida em Madureira. Os pais mudaram para o interior quando Vívian tinha dois anos. Uma tragédia, um desabamento, acabou com a casinha deles… Marcos e Lídia deixaram o Rio só com a roupa do corpo e os três filhos a tiracolo. E viveram “ciganeando” por um longo tempo, de cidadezinha em cidadezinha, até sossegarem em Matosinhos, quase na divisa com Minas. E foi lá que ela passou a infância, a adolescência e parte da vida adulta. Pois é, ela parece jovenzinha, tipo adolescente, mas não é. Já tem trinta e seis anos! O corpo é de trinta (com aparência de uns vinte e cinco…!), mas a mente é de dezoito… Vívian gosta de ser assim como é: com uma cabeça ótima e um corpinho legal!
__Tá fazendo o quê aí parada no meio da cozinha, senhorita?- a voz de “trombone” do barão bem atrás dela…
__Que susto, seu barão! Como é que aparece assim do nada?!?
__Tá fazendo o quê acordada?
__Perdi o sono. Vim tomar um leite, café, sei lá…!
__Trate de procurar o sono no teu quarto! Amanhã tem trabalho, senhorita! Vai dormir!- ele resmunga um palavrão e volta para a sala- Vê se não toma meu café todo, hein! E nem come meus biscoitos! Vou descontar no teu salário, viu!- a voz do barão parece um trovão, apesar dele já estar no alto da escada.
__Boa noite pro senhor também, seu barão!
É, por hoje já deu! Ela volta para o quarto. Vai contar carneiro, vaca, elefante… Até o sono aparecer.doméstica 1 

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